Ao lermos/escutarmos/escrevermos a palavra infância, somos tomados por representações que implicam tecnologias de governo das condutas dos infantis e dos adultos que com eles convivem, atuam, cuidam. Isso impacta as vontades e os saberes desses sujeitos, determinando o que deve ou não ser feito com os infantis, homogeneizando suas experiências. Ao se tratar da infância e da relação entre ela e os adultos, deixamos de lado o fato de que tanto sua invenção quanto sua manutenção ocorreram por uma vontade de poder sobre o governo dos sujeitos infantis, consequências da modernidade. A escola é um espaço-tempo determinante no ser infantil, pois as crianças ficam muito tempo suscetíveis a tecnologias capazes de moldar as subjetividades. A Educação Física faz parte historicamente desse processo, atuando mais incisivamente no governo dos corpos e suas gestualidades. Diante desse cenário e das demandas da sociedade contemporânea, novas formas de pensar, dizer e fazer se apresentam na Educação de modo geral, logo, na Educação Infantil. Isso não é diferente na Educação Física, por essa razão emerge uma perspectiva curricular que se preocupa com os modos de subjetivação presentes na cultura corporal denominada currículo cultural. Sendo assim, o objetivo do presente trabalho é compreender o modo como o currículo cultural da Educação Física é representado pelas pedagogas e/ou pelos(as) professores(as) de Educação Física na Educação Infantil, a fim de evidenciar os efeitos produzidos no encontro pedagógico entre docentes, práticas corporais, crianças pequenas e bebês. Para tanto, foram realizadas entrevistas narrativas com cinco professores(as) que trabalham na Educação Infantil, tendo em vista o currículo cultural da Educação Física. Foi considerado o discurso – em termos foucaultianos – como operador analítico e os resultados demonstraram que o currículo cultural se situa como possibilidade de traçar caminhos pedagógicos em uma dimensão ética nas relações de poder em que se produz a experiência docente. Nessa dinâmica, as crianças pequenas e os bebês são fundamentais no processo de tornar-se professor(a), uma vez que, a partir de uma atitude exposta diante delas, os(as) professores(as) não só consideram as crianças pequenas e os bebês como sujeitos que produzem cultura, significam as práticas corporais e criam maneiras outras de existência, mas também se deixam afetar por esses corpos que geram efeitos e transformam suas ações docentes, evidenciando uma dimensão estética da docência. Ademais, os encaminhamentos didáticos do currículo cultural como leitura, ressignificação, ampliação, aprofundamento, registro e avaliação precisam ser revisados ao se tratar da Educação Infantil, porquanto as crianças pequenas e os bebês produzem sentidos prioritariamente pela corporeidade e sensorialidade, gestos, sons, trajetos e presença, distanciando-se dos discursos verbais e/ou registros escritos comuns nos demais níveis da escolarização.